FUNED 113 Anos – Paulo Freire – farmacêutico que implantou o sistema fabril na Funed

Imagine você entrando na portaria principal da Fundação Ezequiel Dias (Funed). A primeira rua à sua direita, que corta a principal – Ezequiel Dias – é denominada Paulo Freire. Mas você sabe quem foi Paulo Freire? Diferentemente do educador e filósofo pernambucano, o Paulo Freire que vamos conhecer melhor, hoje, é mineiro, de Cristiano Otoni, e teve uma grande representatividade na história da produção farmacêutica da Funed.

Paulo Alves Freire, o terceiro escolhido para a série das Pessoas Ilustres da Funed, nasceu no dia 10 de março de 1932. Filho de Bernardo Freire e de Hilda Alves Nogueira, desde pequeno sonhava em ser farmacêutico, como o padrinho. Fez o curso primário e o ginásio no interior de Minas. Na década 1940, seu pai, que trabalhava na Estação Ferroviária Central do Brasil, foi transferido do interior de Minas Gerais para Belo Horizonte. Foi aqui que Paulo Freire terminou o curso científico e prestou concurso para a faculdade.

Em 1958, concluiu o Curso de Farmacêutico Químico, na Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais, especializando-se na área de produção industrial, com estágio no Laboratório Torres, de São Paulo. No retorno a Belo Horizonte, começou a trabalhar no Laboratório Osório de Morais, fundado em 1923, na época um dos mais tradicionais da capital mineira. Paulo Freire era um dos farmacêuticos responsáveis pelos principais produtos do laboratório, como as Pílulas de Ervas de Bicho, destinadas ao tratamento da prisão de ventre e das hemorroidas, e as Pílulas de Lussen, que possuem ação antisséptica das vias urinárias e ajudam na prevenção de pedra nos rins. Em 1960, conheceu Gercina da Silva, funcionária do Laboratório, com quem logo se casou e teve duas filhas: Simone e Sibele.

Ascensão na carreira

Em maio de 1962, no governo de Clóvis Salgado, Freire foi admitido como farmacêutico da Secretaria de Saúde de Minas Gerais, com a missão de implantar o projeto de Assistência Farmacêutica no Estado. Vigente até hoje, o Programa é responsável pelo fornecimento de medicamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) a todos os mineiros, contemplando, assim, ações voltadas à clínica e também apoio aos municípios.

Já no ano seguinte, em 1963, Lívio Renault, então dirigente do Instituto Ezequiel Dias, convocou Paulo Freire para o cargo de chefe do setor de comprimidos e drágeas da instituição. Paulo ficou responsável por esse setor por 11 anos e, durante esse período, gerenciou rigorosamente a produção de medicamentos.

Ao mesmo tempo, Paulo Freire atuava como consultor técnico do Laboratório Osório de Morais. No laboratório, ajudou a modernizar, a reestruturar e a implantar novos produtos de fabricação como Auris-Sedina, para o tratamento da dor de ouvido e remoção da secreção do ouvido externo (cerume); e as Pílulas Imescard, destinadas ao tratamento da prisão de ventre e das hemorroidas.

Em 1964, Paulo Freire e um grupo de amigos da Faculdade de Farmácia fundaram, em Venda Nova, o Clube Topázio, casa de campo do farmacêutico. Paulo sempre discutia o andamento das obras e era atuante gestor financeiro e frequentador do clube, sempre acompanhado da família. Nesse mesmo período, lecionava como professor assistente da disciplina de Tecnologia Farmacêutica, da Faculdade de Farmácia da UFMG, e como professor de Física Industrial, na Faculdade de Farmácia e Bioquímica da Universidade Federal de Ouro Preto.

Recorde de produção

Em 1973, a Funed se integrou ao sistema CEME (Central de Medicamentos) do governo federal, momento em que a Fundação recebeu muitas verbas para a ampliação e modernização do sistema de produção fabril de medicamentos. Paulo Freire foi convocado a assumir toda a produção de drágea, comprimido, líquido e injetável da Instituição, sendo então considerado a pessoa responsável por implementar o sistema fabril da Funed.

Paulo Freire atendia toda a demanda da CEME, implantou normas e técnicas de produção, além de um sistema da qualidade farmacêutica. A Funed chegou a ocupar o terceiro lugar em valor financeiro de produção para a CEME, dentre os 22 laboratórios existentes na época. Segundo a historiadora da Funed, Fabiana Melo Neves, Paulo Freire é um personagem que tem grande representatividade na história da produção fabril da Funed, uma vez que foi em sua gestão a implantação do sistema fabril e da conquista de vários recordes de produção.  “Entre os servidores da casa, era considerado exigente e severo, além de ser muito detalhista. Contudo, era um entusiasta e defensor dos interesses e direitos dos funcionários”, completa Fabiana.

Em 1975, Freire atuou por dois períodos no curso de auxiliar de farmácia, ministrado pela Escola de Saúde de Minas Gerais, em parceria com a Universidade do Trabalho. Já em meados da década de 1980, durante a abertura política, o programa da CEME não teve o mesmo incentivo. O governo militar perdeu as forças e Wilson Aguinaldo de Paiva assumiu a direção da Funed, promovendo na instituição uma mudança radical na estrutura física e na equipe de assessores e diretores.

Com isso, em outubro de 1986, Paulo Freire é dispensado de suas funções como diretor da produção farmacêutica, trabalhando somente como professor exclusivo da Faculdade de Farmácia da UFMG. Menos de um ano depois, em janeiro de 1987, voltando de Nova Almeida, no Espírito Santo, de uma viagem de férias com a família, o carro de Paulo Freire bate em um caminhão. Paulo e a mulher Gercina morreram na hora, sobrevivendo apenas a sobrinha, que estava no banco de trás do automóvel. As filhas, adolescentes, que voltaram de ônibus, receberam a triste notícia.

 

Fonte: FUNED